Thursday, November 22, 2007

Estação Loran (NATO) Santa Maria Açores


Não deve haver regressos fáceis à infância…
Se fomos infelizes, não nos apetece reviver o passado, mas somente fugir dele a sete pés!
Se fomos felizes, como é o meu caso, vem-nos a nostalgia de quem já não temos connosco e acompanhou esses anos. Depois há a nostalgia dos lugares, das paisagens e das casas, as medidas daquele hall que percorremos todos os dias, daquele armário em que nos escondíamos, do corredor em que fazíamos patinagem artística. Essas medidas acompanham-nos para sempre: formatam dentro de nós uma dimensão de aconchego que fica parte intrínseca de nós.

Se juntarmos a tudo isto as regras da sensatez, que o Rui Veloso imortalizou na cantiga com o mesmo nome, melhor perceberão os Marienses que me lerem o choque que foi ver a Loran, já em 1994 naquele destroço em que se encontra. Cometi a patetice de lá voltar (já sem máquina fotográfica) em 2000, após a morte de meu pai, e já não consegui circular na estrada alcatroada que circundava o complexo, tal era o matagal. Desta última vez nem sei se cheguei a entrar na casa que era a minha!

Sim, eu vivi lá dos seis aos dez anos, frequentei a escola feminina de Santa Bárbara e fiz exame de 4ª classe na escola de Vila do Porto, aquela, logo à entrada, quando se vem do aeroporto (tenho até um diploma assinado pelo sr. Prof. Geraldo Soares Coutinho Cabral). Quatro anos passados entre afazeres escolares, leituras (tínhamos a visita regular da biblioteca itinerante da Gulbenkian e os livros, imaginem quais, do Noddy!, sim, sim o mesmo que agora é figura televisiva) e sobretudo muita brincadeira ao ar livre, em total liberdade (ainda não se tinha inventado o rapto de crianças, pelo menos por aquelas paragens) e com mar por todos os lados, a avistar o jacto de água levantado pelas baleias de vez em quando. O que pode mais desejar uma criança? Um pai e mãe estupendos. Pois também tive, sendo que mãe ainda tenho!

Este post, acreditem, não veio sem dificuldade, foi um pedido do dono de um blog sobre Santa Maria, a que acedi com enorme gosto, mas alguma mágoa, por verificar a quantidade de asneiras que aparecem na Internet sobre a Loran (por exemplo que foi o estado francês que a construiu!!!!), por ficar a saber que nada foi feito num espaço tão nobre. Mesmo que as casas não sejam aproveitáveis, pelo menos o terreno, não? Tive ocasião de dizer a um dos senhores presidentes de Câmara de Vila do Porto que preferia ver as casas arrasadas a vê-las em tal estado. É a verdade, não me repugna que seja dado outro uso a uma casa que me pertenceu ou que habitei. Significa isso que ela vive, que seguiu em frente a sua vida… mas aquilo! Aquilo é morte por negligência e abandono. É demais, é demasiado triste, ver o mato soberano tomar conta do passado sem que nada nem ninguém lhe faça frente. Só me vem à memória uma fala de Denis, em África minha: it will grow wild… e de que maneira, aquilo é uma verdadeira lição da natureza, é a sua vitória sobre o nosso desleixo – não me excluo.

Mas não fiquem os Marienses desgostosos e sobretudo não pensem que só aí é que acontecem coisas destas. Os que já vieram aos Jerónimos podem ver, mesmo à frente do CCB, a ruína que ali ficou da exposição do Mundo português, do tempo do Salazar (sem vénia e sem dr, para que não haja dúvidas sobre mim), vejam em que ano foi que não sei precisar. E lá está e nada acontece. E podem crer que a verba para construir o tal de CCB foi bem choruda, à data. Lembro-me que no orçamento do Min da Cultura desse ano esse era o número mais comprido!

Mais alguma coisa que queiram saber, perguntem. Talvez eu precise mesmo de responder….

9 Comments:

Blogger Martinika said...

Nostalgia, e isso sente.se, mesmo que não se passe connosco e se passe muito perto, lá mesmo dentro, e que só sai cá para fora juntamente com as palavras sinceras.
Parece que as pessoas se sentem e nos dão vontade de seguir, de chorar, chorar de as sentir longe e de as sentir tao perto.
Agora sei o que é "uma infancia feliz". Sentia nos abraços, nas lágrimas, nos sorrisos, nas palavras.
Vieram.me abundantemente as lágrimas aos olhos.

November 29, 2007  
Blogger Semolina said...

Olá Alice.
Foi com muito gosto que li o seu comentário no Memórias da minha Ilha, e que a conheci no jantar mariense.
Se não se importar, vou publicar no meu blog o seu texto, e remetê-lo para o seu blog e para o do MC.
Beijinhos

Ângela Loura

November 29, 2007  
Blogger alice said...

ângela, pode publicar o que quiser - o mesmo texto já saiu no blog do MC, aliás foi a pedido dele que o escrevi. Estão lá também algumas fotos da Loran.
beijinho
também gostei muito de vos conhecer, a ambas as Louras

November 30, 2007  
Blogger rchaves said...

Eu apenas lhe consigo dizer que as lágrimas estão neste preciso momento penduradas na parte inferior como se fossem 50 Kg de chumbo! É por isto que acho que a Internet foi uma grande invenção!

April 24, 2010  
Blogger Carla Veríssimo said...

Cara Alice,

Fiquei bastante comovida com este texto.
Apesar de não ser natural de Santa Maria e ter nascido em 1979, aquela ilha transmite-me sempre um bem-estar incrível.
Agora em meados de Maio estive de férias por lá, e deambulei pelas salas, quartos, divisões e escadas da Estação.
Tentei imaginar pessoas, momentos, vozes, cores, correrias,... dias de azáfama... mas não tinha mais do que aquelas paredes infelizmente vandalizadas a que me tentar agarrar...
Gostava de saber um pouco mais sobre esses tempos, que livros/bibliografia poderei consultar e porque entendo o quão "precise mesmo de responder..."

May 27, 2013  
Blogger Carla Veríssimo said...

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May 27, 2013  
Blogger Carla Veríssimo said...

Cara Alice,

Fiquei bastante comovida com este texto.
Apesar de não ser natural de Santa Maria e ter nascido em 1979, aquela ilha transmite-me sempre um bem-estar incrível.
Agora em meados de Maio estive de férias por lá, e deambulei pelas salas, quartos, divisões e escadas da Estação.
Tentei imaginar pessoas, momentos, vozes, cores, correrias,... dias de azáfama... mas não tinha mais do que aquelas paredes infelizmente vandalizadas a que me tentar agarrar...
Gostava de saber um pouco mais sobre esses tempos, que livros/bibliografia poderei consultar e porque entendo o quão "precise mesmo de responder..."

May 27, 2013  
Blogger Alice said...

Carla, já lhe respondi via e-mail e já deambulei nos seus muito interessantes blogs. E Somos quase colegas de profissão - eu sou florestal!

December 15, 2013  
Blogger Alice said...

e um detalhe: a Carla reparou nas casas da Loran? é que o único edifício que tem escadas é a Messe (não sei como isto se escreve)...
as casas estão atrás, mas é preciso saber que lá estão!

December 15, 2013  

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