Estação Loran (NATO) Santa Maria Açores

Não deve haver regressos fáceis à infância…
Se fomos infelizes, não nos apetece reviver o passado, mas somente fugir dele a sete pés!
Se fomos felizes, como é o meu caso, vem-nos a nostalgia de quem já não temos connosco e acompanhou esses anos. Depois há a nostalgia dos lugares, das paisagens e das casas, as medidas daquele hall que percorremos todos os dias, daquele armário em que nos escondíamos, do corredor em que fazíamos patinagem artística. Essas medidas acompanham-nos para sempre: formatam dentro de nós uma dimensão de aconchego que fica parte intrínseca de nós.
Se juntarmos a tudo isto as regras da sensatez, que o Rui Veloso imortalizou na cantiga com o mesmo nome, melhor perceberão os Marienses que me lerem o choque que foi ver a Loran, já em 1994 naquele destroço em que se encontra. Cometi a patetice de lá voltar (já sem máquina fotográfica) em 2000, após a morte de meu pai, e já não consegui circular na estrada alcatroada que circundava o complexo, tal era o matagal. Desta última vez nem sei se cheguei a entrar na casa que era a minha!
Sim, eu vivi lá dos seis aos dez anos, frequentei a escola feminina de Santa Bárbara e fiz exame de 4ª classe na escola de Vila do Porto, aquela, logo à entrada, quando se vem do aeroporto (tenho até um diploma assinado pelo sr. Prof. Geraldo Soares Coutinho Cabral). Quatro anos passados entre afazeres escolares, leituras (tínhamos a visita regular da biblioteca itinerante da Gulbenkian e os livros, imaginem quais, do Noddy!, sim, sim o mesmo que agora é figura televisiva) e sobretudo muita brincadeira ao ar livre, em total liberdade (ainda não se tinha inventado o rapto de crianças, pelo menos por aquelas paragens) e com mar por todos os lados, a avistar o jacto de água levantado pelas baleias de vez em quando. O que pode mais desejar uma criança? Um pai e mãe estupendos. Pois também tive, sendo que mãe ainda tenho!
Este post, acreditem, não veio sem dificuldade, foi um pedido do dono de um blog sobre Santa Maria, a que acedi com enorme gosto, mas alguma mágoa, por verificar a quantidade de asneiras que aparecem na Internet sobre a Loran (por exemplo que foi o estado francês que a construiu!!!!), por ficar a saber que nada foi feito num espaço tão nobre. Mesmo que as casas não sejam aproveitáveis, pelo menos o terreno, não? Tive ocasião de dizer a um dos senhores presidentes de Câmara de Vila do Porto que preferia ver as casas arrasadas a vê-las em tal estado. É a verdade, não me repugna que seja dado outro uso a uma casa que me pertenceu ou que habitei. Significa isso que ela vive, que seguiu em frente a sua vida… mas aquilo! Aquilo é morte por negligência e abandono. É demais, é demasiado triste, ver o mato soberano tomar conta do passado sem que nada nem ninguém lhe faça frente. Só me vem à memória uma fala de Denis, em África minha: it will grow wild… e de que maneira, aquilo é uma verdadeira lição da natureza, é a sua vitória sobre o nosso desleixo – não me excluo.
Mas não fiquem os Marienses desgostosos e sobretudo não pensem que só aí é que acontecem coisas destas. Os que já vieram aos Jerónimos podem ver, mesmo à frente do CCB, a ruína que ali ficou da exposição do Mundo português, do tempo do Salazar (sem vénia e sem dr, para que não haja dúvidas sobre mim), vejam em que ano foi que não sei precisar. E lá está e nada acontece. E podem crer que a verba para construir o tal de CCB foi bem choruda, à data. Lembro-me que no orçamento do Min da Cultura desse ano esse era o número mais comprido!
Se fomos infelizes, não nos apetece reviver o passado, mas somente fugir dele a sete pés!
Se fomos felizes, como é o meu caso, vem-nos a nostalgia de quem já não temos connosco e acompanhou esses anos. Depois há a nostalgia dos lugares, das paisagens e das casas, as medidas daquele hall que percorremos todos os dias, daquele armário em que nos escondíamos, do corredor em que fazíamos patinagem artística. Essas medidas acompanham-nos para sempre: formatam dentro de nós uma dimensão de aconchego que fica parte intrínseca de nós.
Se juntarmos a tudo isto as regras da sensatez, que o Rui Veloso imortalizou na cantiga com o mesmo nome, melhor perceberão os Marienses que me lerem o choque que foi ver a Loran, já em 1994 naquele destroço em que se encontra. Cometi a patetice de lá voltar (já sem máquina fotográfica) em 2000, após a morte de meu pai, e já não consegui circular na estrada alcatroada que circundava o complexo, tal era o matagal. Desta última vez nem sei se cheguei a entrar na casa que era a minha!
Sim, eu vivi lá dos seis aos dez anos, frequentei a escola feminina de Santa Bárbara e fiz exame de 4ª classe na escola de Vila do Porto, aquela, logo à entrada, quando se vem do aeroporto (tenho até um diploma assinado pelo sr. Prof. Geraldo Soares Coutinho Cabral). Quatro anos passados entre afazeres escolares, leituras (tínhamos a visita regular da biblioteca itinerante da Gulbenkian e os livros, imaginem quais, do Noddy!, sim, sim o mesmo que agora é figura televisiva) e sobretudo muita brincadeira ao ar livre, em total liberdade (ainda não se tinha inventado o rapto de crianças, pelo menos por aquelas paragens) e com mar por todos os lados, a avistar o jacto de água levantado pelas baleias de vez em quando. O que pode mais desejar uma criança? Um pai e mãe estupendos. Pois também tive, sendo que mãe ainda tenho!
Este post, acreditem, não veio sem dificuldade, foi um pedido do dono de um blog sobre Santa Maria, a que acedi com enorme gosto, mas alguma mágoa, por verificar a quantidade de asneiras que aparecem na Internet sobre a Loran (por exemplo que foi o estado francês que a construiu!!!!), por ficar a saber que nada foi feito num espaço tão nobre. Mesmo que as casas não sejam aproveitáveis, pelo menos o terreno, não? Tive ocasião de dizer a um dos senhores presidentes de Câmara de Vila do Porto que preferia ver as casas arrasadas a vê-las em tal estado. É a verdade, não me repugna que seja dado outro uso a uma casa que me pertenceu ou que habitei. Significa isso que ela vive, que seguiu em frente a sua vida… mas aquilo! Aquilo é morte por negligência e abandono. É demais, é demasiado triste, ver o mato soberano tomar conta do passado sem que nada nem ninguém lhe faça frente. Só me vem à memória uma fala de Denis, em África minha: it will grow wild… e de que maneira, aquilo é uma verdadeira lição da natureza, é a sua vitória sobre o nosso desleixo – não me excluo.
Mas não fiquem os Marienses desgostosos e sobretudo não pensem que só aí é que acontecem coisas destas. Os que já vieram aos Jerónimos podem ver, mesmo à frente do CCB, a ruína que ali ficou da exposição do Mundo português, do tempo do Salazar (sem vénia e sem dr, para que não haja dúvidas sobre mim), vejam em que ano foi que não sei precisar. E lá está e nada acontece. E podem crer que a verba para construir o tal de CCB foi bem choruda, à data. Lembro-me que no orçamento do Min da Cultura desse ano esse era o número mais comprido!
Mais alguma coisa que queiram saber, perguntem. Talvez eu precise mesmo de responder….
9 Comments:
Nostalgia, e isso sente.se, mesmo que não se passe connosco e se passe muito perto, lá mesmo dentro, e que só sai cá para fora juntamente com as palavras sinceras.
Parece que as pessoas se sentem e nos dão vontade de seguir, de chorar, chorar de as sentir longe e de as sentir tao perto.
Agora sei o que é "uma infancia feliz". Sentia nos abraços, nas lágrimas, nos sorrisos, nas palavras.
Vieram.me abundantemente as lágrimas aos olhos.
Olá Alice.
Foi com muito gosto que li o seu comentário no Memórias da minha Ilha, e que a conheci no jantar mariense.
Se não se importar, vou publicar no meu blog o seu texto, e remetê-lo para o seu blog e para o do MC.
Beijinhos
Ângela Loura
ângela, pode publicar o que quiser - o mesmo texto já saiu no blog do MC, aliás foi a pedido dele que o escrevi. Estão lá também algumas fotos da Loran.
beijinho
também gostei muito de vos conhecer, a ambas as Louras
Eu apenas lhe consigo dizer que as lágrimas estão neste preciso momento penduradas na parte inferior como se fossem 50 Kg de chumbo! É por isto que acho que a Internet foi uma grande invenção!
Cara Alice,
Fiquei bastante comovida com este texto.
Apesar de não ser natural de Santa Maria e ter nascido em 1979, aquela ilha transmite-me sempre um bem-estar incrível.
Agora em meados de Maio estive de férias por lá, e deambulei pelas salas, quartos, divisões e escadas da Estação.
Tentei imaginar pessoas, momentos, vozes, cores, correrias,... dias de azáfama... mas não tinha mais do que aquelas paredes infelizmente vandalizadas a que me tentar agarrar...
Gostava de saber um pouco mais sobre esses tempos, que livros/bibliografia poderei consultar e porque entendo o quão "precise mesmo de responder..."
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Cara Alice,
Fiquei bastante comovida com este texto.
Apesar de não ser natural de Santa Maria e ter nascido em 1979, aquela ilha transmite-me sempre um bem-estar incrível.
Agora em meados de Maio estive de férias por lá, e deambulei pelas salas, quartos, divisões e escadas da Estação.
Tentei imaginar pessoas, momentos, vozes, cores, correrias,... dias de azáfama... mas não tinha mais do que aquelas paredes infelizmente vandalizadas a que me tentar agarrar...
Gostava de saber um pouco mais sobre esses tempos, que livros/bibliografia poderei consultar e porque entendo o quão "precise mesmo de responder..."
Carla, já lhe respondi via e-mail e já deambulei nos seus muito interessantes blogs. E Somos quase colegas de profissão - eu sou florestal!
e um detalhe: a Carla reparou nas casas da Loran? é que o único edifício que tem escadas é a Messe (não sei como isto se escreve)...
as casas estão atrás, mas é preciso saber que lá estão!
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