Monday, July 18, 2011

Brilharetes

E deixamos tudo para trás e vamos à procura de extra-terrestres; deixamos os pobres, os mal cheirosos, fugimos até do rasto deles, esquecemos os cães abandonados ao desespero da falta de dono (ainda que mau, ainda que rude, o dono era a sua segurança) e vamos todos fazer outra coisa – lavar os dentes, lavar os cus para esquecer que o nosso próprio cheiro é igual ao dos pedintes sem água nem sabão, com o desespero a minar-lhes as réstias de vida que teimam em não abandoná-los, as noites gélidas a arrastarem-se por eternidades, infernos sem fim – porque não vem a morte de mansinho servir-lhes de cobertor? Pergunto-me e respondo logo: porque não há deus!
(A propósito de Brilharetes, uma peça que vi no festival de Almada 2011)

Friday, February 05, 2010

Aviso aos navegantes

Caros amigos (e outros que por aqui passem) este blog continua aqui mesmo ao lado, no Palavras sem dono, cujo link é:

http://palavras-sem-dono.blogspot.com/

Wednesday, April 30, 2008

crónica sombria

Amigos que o foram (ou não)

Sabemos como a vida é capaz de nos dividir caminhos e fazer mergulhar em forçada solidão. Como se encarrega de nos enredar em turbilhões sombrios de deveres e haveres. Como as amizades se perdem na distância que não se pode percorrer ou no tempo que não pode volver. Aceitamos tudo isto como natural e imprescindível ao nosso avanço pela vida dentro.
Conhecemos a ordem implacável do mundo que nos obriga a velocidades maiores que o nosso passo e no entanto…
Se de repente nos surge um desses fantasmas do passado que não esquecemos, alguém que nos acompanhou e que perdemos sem razão aparente, queremos recuperar o tempo perdido, pô-lo de novo a fazer parte do roteiro dos nossos dias.
Dói quando tentamos e percebemos que no outro existimos já e só apenas em catálogo, numa prateleirinha bem colocada do armário, à qual ninguém limpa o pó e pela qual se passa sem olhar.
Dói, apesar de “natural”, dói, apesar de ser exactamente isso o que esperamos desse fantasma que tínhamos feito tudo para esquecer e afinal ainda nos acena, enganador. Dói corrosivamente, sem explicação racional, até que o esquecimento repõe a tranquilidade desejada. Fica-se mais pobre, sem remédio.

Wednesday, January 30, 2008

Programa de investigação

Sei que olho para ti como se já tivesses morrido. Não podes já convencer-me de nada, existes numa esfera onde não navego. Nem dor nem raiva, sinto conforto e falo de ti no passado.
E no entanto
Indico-te mil caminhos,
Deixo-te pedrinhas brancas a marcar o caminho de mim

Não trilhas nenhum, vagueias em volta de alguma pedra negra que lá não pus; depois recuas, o medo a atrapalhar-te as escolhas que nunca soubeste fazer, sempre à espera que o vento te empurre numa ou noutra direcção, alheia à tua vontade e responsabilidade. Mais fácil é acusar o vento. Andar ao sabor dele, por comodismo ou simples tentação.

A propósito, nem sei o que te tenta agora. A morte levou-te, lembras-te? e aos mortos falta toda a espécie de curiosidade – nem te importarão viagens, nem tesouros, nem aventuras de cama e mesa.
Ao contrário da minha gata preta, para a qual um simples caixote de papelão é um programa de investigação inteiro!!!

Sunday, January 13, 2008

ressaca

eu sabia ou pelo menos suspeitava, que quando acabasse "o trabalho" se passaria qualquer coisa sem explicação e mesmo muito, muito estranha - não que tenha já entregue o trabalho, mas só lhe farei mais uns retoques, a cosmética, por assim dizer.
nunca tomei drogas, álcool só muito de vez em quando, mas suspeito que o quadro que me corresponde se chama ressaca, por isso desculpem qualquer coisinha...

Wednesday, November 28, 2007

gata preta

Tenho ao colo uma gata enroscada num cascol porque não a quero arrefecer com as minhas mãos sempre frias... isto será normal ?
Enquanto espero que acorde vou postando...

Thursday, November 22, 2007

Estação Loran (NATO) Santa Maria Açores


Não deve haver regressos fáceis à infância…
Se fomos infelizes, não nos apetece reviver o passado, mas somente fugir dele a sete pés!
Se fomos felizes, como é o meu caso, vem-nos a nostalgia de quem já não temos connosco e acompanhou esses anos. Depois há a nostalgia dos lugares, das paisagens e das casas, as medidas daquele hall que percorremos todos os dias, daquele armário em que nos escondíamos, do corredor em que fazíamos patinagem artística. Essas medidas acompanham-nos para sempre: formatam dentro de nós uma dimensão de aconchego que fica parte intrínseca de nós.

Se juntarmos a tudo isto as regras da sensatez, que o Rui Veloso imortalizou na cantiga com o mesmo nome, melhor perceberão os Marienses que me lerem o choque que foi ver a Loran, já em 1994 naquele destroço em que se encontra. Cometi a patetice de lá voltar (já sem máquina fotográfica) em 2000, após a morte de meu pai, e já não consegui circular na estrada alcatroada que circundava o complexo, tal era o matagal. Desta última vez nem sei se cheguei a entrar na casa que era a minha!

Sim, eu vivi lá dos seis aos dez anos, frequentei a escola feminina de Santa Bárbara e fiz exame de 4ª classe na escola de Vila do Porto, aquela, logo à entrada, quando se vem do aeroporto (tenho até um diploma assinado pelo sr. Prof. Geraldo Soares Coutinho Cabral). Quatro anos passados entre afazeres escolares, leituras (tínhamos a visita regular da biblioteca itinerante da Gulbenkian e os livros, imaginem quais, do Noddy!, sim, sim o mesmo que agora é figura televisiva) e sobretudo muita brincadeira ao ar livre, em total liberdade (ainda não se tinha inventado o rapto de crianças, pelo menos por aquelas paragens) e com mar por todos os lados, a avistar o jacto de água levantado pelas baleias de vez em quando. O que pode mais desejar uma criança? Um pai e mãe estupendos. Pois também tive, sendo que mãe ainda tenho!

Este post, acreditem, não veio sem dificuldade, foi um pedido do dono de um blog sobre Santa Maria, a que acedi com enorme gosto, mas alguma mágoa, por verificar a quantidade de asneiras que aparecem na Internet sobre a Loran (por exemplo que foi o estado francês que a construiu!!!!), por ficar a saber que nada foi feito num espaço tão nobre. Mesmo que as casas não sejam aproveitáveis, pelo menos o terreno, não? Tive ocasião de dizer a um dos senhores presidentes de Câmara de Vila do Porto que preferia ver as casas arrasadas a vê-las em tal estado. É a verdade, não me repugna que seja dado outro uso a uma casa que me pertenceu ou que habitei. Significa isso que ela vive, que seguiu em frente a sua vida… mas aquilo! Aquilo é morte por negligência e abandono. É demais, é demasiado triste, ver o mato soberano tomar conta do passado sem que nada nem ninguém lhe faça frente. Só me vem à memória uma fala de Denis, em África minha: it will grow wild… e de que maneira, aquilo é uma verdadeira lição da natureza, é a sua vitória sobre o nosso desleixo – não me excluo.

Mas não fiquem os Marienses desgostosos e sobretudo não pensem que só aí é que acontecem coisas destas. Os que já vieram aos Jerónimos podem ver, mesmo à frente do CCB, a ruína que ali ficou da exposição do Mundo português, do tempo do Salazar (sem vénia e sem dr, para que não haja dúvidas sobre mim), vejam em que ano foi que não sei precisar. E lá está e nada acontece. E podem crer que a verba para construir o tal de CCB foi bem choruda, à data. Lembro-me que no orçamento do Min da Cultura desse ano esse era o número mais comprido!

Mais alguma coisa que queiram saber, perguntem. Talvez eu precise mesmo de responder….